Argumentos em prol de Dilma

brasil

Li na semana passada dois textos na coluna Opinião no Jornal Folha da Manhã que circula aqui em Passos e região, um deles denominado “Por quê Aécio” e outro “Argumentos em prol de Aécio” (leia este texto aqui), este último que serviu de motivação para estas linhas que seguem.

Também não tenho a mínima pretensão de estabelecer verdades, porque não reconheço  ninguém como detentor delas neste plano. Tampouco pretendo convencer alguém. Meu ofício me ensinou desde muito que nunca vou conseguir convencer a parte contrária, mas somente àquele que julga ou algum observador, quando muito.

Mas lendo e relendo os argumentos do ilustre Alberto Calixto Mattar Junior não me convenço que seja o momento de uma troca na Presidência da República do Brasil.

Isso porque o governo popular que se iniciou com Lula está no poder apenas há 12 anos, ao passo que as outras propostas que governaram o país até 2002 apenas se alternaram entre um e outro segmento da mesma ideologia, nunca dando chance para que houvesse uma efetiva participação do povo no Poder. Continuar lendo

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Reclamação e cidadania

No Jornal Folha da Manhã que circula aqui em Passos e região, tem uma coluna chamada Seção Livre na quais leitores fazem reclamações diversas.

Os alvos preferidos são a Prefeitura, serviço de água e pronto socorro, com reclamações de filas, buracos nas ruas e matos nos lotes.

Uma delas chama a atenção pelo esclarecimento interessante e desfecho inesperado.

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Sobre a covardia

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Hoje no Jornal Folha da Manhã o arquiteto e chargista passense Ivan Vasconcelos publicou uma crônica (que reproduzo abaixo) sobre uma prática infelizmente corriqueira na administração pública, tipicamente de coronelismo interiorano, genuinamente politiqueira.

De fato, concordo com o cronista sobre a infelicidade de se conviver com administradores públicos desta categoria.

Fazer o quê? É um mal de nosso tempo, que tenho certeza brevemente acabará.

Posso dar testemunho da dedicação da Silvia na função descrita, embora nunca a tenha utilizado.

O que serve de alento querida Silvia, é que quando canalhas nos perseguem é um verdadeiro atestado de idoneidade e honestidade.

Pior se fossemos da mesma laia…

Crônica da caneta covarde

Por Ivan Vasconcelos

O Prefeito, recém empossado, está em seu gabinete, assinando as nomeações para os cargos de chefia que passarão a compor a sua equipe. Alguns já foram prometidos em acordos políticos que viabilizaram a sua eleição; outros servem para recompensar uma militância em seu favor. Outros devem ser meramente funcionais e nem despertariam tanto interesse. Chega ao documento referentes à chefia do TFD (Tratamento Fora do Domicilio), passando os olhos sobre os dados da funcionária nomeada, sem se lembrar muito bem de quem se trata, embora ela já tenha lhe prestado serviços, como funcionária concursada, em mandato anterior.

Trata-se de uma funcionária que exerce irrepreensivelmente a função há vários anos. Além de passar o dia envolvida com os dramas dos inúmeros pacientes que dependem de um bom funcionamento do TFD, ela leva para casa dois celulares que tocam diuturnamente, sem diferenciar dias de semana de sábados, domingos ou feriados. Sua tarefa é equacionar as inúmeras dificuldades administrativas com as necessidades urgentes de pacientes, extremamente carentes em sua maioria, debilitados com doenças para as quais o município não dispõem de tratamento. É um paciente grave, que precisa ser encaminhado para São Paulo, mas não tem ambulância, que foi buscar outro paciente em Barretos. É outro que precisa de um exame caríssimo, cuja cota para o município está esgotada. Um outro com uma doença grave, dependendo de uma consulta que o sistema agenda para meses à frente.

Inúmeras vezes, a funcionária se envolve pessoalmente com estes problemas, e não raro tem-se notícia de iniciativas dela, junto com outros colegas, para angariar fundos para uma cesta básica destinada a algum paciente em situação crítica. Também não foram poucas as vezes que foi vista com lágrimas nos olhos, sinceras, motivadas por dramas vividos por aqueles que diariamente atende; como não foram poucas as vezes que lutou contra adversidades ou imposições burocráticas dos serviços que atendem os seus pacientes, para conseguir maior celeridade ou uma disponibilidade que não havia. De reputação ilibada, nunca esteve envolvida em nenhuma situação de obter vantagem pessoal, apesar das prerrogativas do cargo proporcionarem oportunidades de ganho ilícito ou obtenção de benefícios próprios. Como é uma pessoa muito ligada à fé, acaba oferecendo apoio espiritual a inúmeras pessoas que chegam à sua mesa desesperadas, em busca de tratamento para um câncer que acabou de ser diagnosticado, ou de uma cirurgia cardíaca que é sua única esperança de permanecer vivo. Várias vezes, chegou em casa, feliz da vida, porque um paciente voltou ao TFD para lhe dizer que sobreviveu e para agradecê-la por seu empenho. Também várias vezes, chegou chorando por saber que algum dos seus pacientes, como costuma se referir, não resistiu à sua enfermidade.

Embora o Prefeito talvez não saiba, ela desempenhou por anos a tarefa, efetivamente, mesmo sem ter a nomeação e, óbvio, a remuneração correspondente ao cargo de chefia. E embora ele também não saiba, ela chegou a desenvolver, por conta própria um pequeno sistema informatizado para organizar os trabalhos no setor. Nomeada, ela exerceu a função nos dois últimos anos da gestão anterior. Ou melhor, seiscentos e noventa e dois dias: pela legislação municipal, faltam-lhe 38 dias para que seja apostilada no cargo e deixe de ter sobre sua cabeça a espada da incerteza do viés político inerente aos cargos de confiança. No caso dela, uma legítima e rara situação de merecimento desta discutível benesse, que já não mais vale para os novos nomeados.

O Prefeito toma a caneta e curva-se sobre a mesa para assinar. Mas esse é um dos momentos mais importantes do jogo político, onde a conta da eleição é efetivamente paga. Por isso ele não está sozinho na sala. Alguns secretários o rondam e um deles, mestre na arte de rondar o poder, ao ler o sobrenome da futura chefe do TFD o interrompe:

– Você vai nomear esta aí? Não sabe quem ela é?! Recolocando a caneta sobre a mesa, o Prefeito toma a folha novamente nas mãos e relê, pensativo sobre os dados. Um outro, indiferente às implicações que a atitude covarde poderia causar à vida da funcionária, complementou ironicamente:

– Ela é irmã daquele chargista que pega no pé dos políticos da cidade…

Outro secretário intervém, timidamente, tentando resguardar a hombridade que tem, mas sem colocar em risco sua alta função:

– O que ela tem a ver com isso? É excelente funcionária, nunca trabalhou politicamente contra você, depende do salário e vai ser punida por causa da atividade do outro?!

Aos sorrisos sarcásticos que se manifestaram nos cantos de várias bocas presentes, seguiram-se lágrimas nos olhos da funcionária ao receber a notícia da exoneração, ironicamente no dia do seu aniversário. Danem-se seus anos de dedicação, dane-se sua honestidade. Dane-se a sua competência. Dane-se o seu comprometimento. Dane-se os compromissos que tem com o minguado salário.

E dane-se também a liberdade de imprensa.

Pobre da cidade governada por indivíduos com este tipo de mentalidade, com esta deficiência de caráter e capazes de covardias irreparáveis como esta. Usurpam do poder, refestelando-se enquanto as pessoas de bem perdem a capacidade de se indignar e se revoltar contra as atrocidades cometidas, tratando-as como se fossem inevitáveis nesse jogo podre. E, definitivamente não são.

(Como as fontes, obviamente, nunca confirmariam publicamente a veracidade do motivo da exoneração, claro que este texto deve ser considerado uma mera obra de ficção e qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência. Exceto a parte das qualidades da funcionária, onde não faltarão amigos verdadeiros, colegas de trabalho e pacientes agradecidos para testemunhar)

IVAN VASCONCELLOS, arquiteto e irmão de Silvia Andrade Vasconcellos.

Para ler e comentar a notícia no site da Folha da Manhã: http://www.clicfolha.com.br/noticia/19573/cronica-da-caneta-covarde

Para ouvir a música do Chico Buarque: https://www.youtube.com/watch?v=iOy6Qcn_Nhc

Responsabilização do adolescente infrator

menor infratorReproduzo interessante artigo publicado no jornal Folha da Manhã de 23/01/2013.
A Autora é subsecretária de Atendimento às Medidas Socioeducativas da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) de Minas Gerais.
Não há solução fácil para a questão dos menores infratores, mas toda iniciativa como esta é bem vinda.
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Responsabilização do adolescente infrator

Por Camila Nicácio

O tema da criança e do adolescente infrator ganha novos contornos na contemporaneidade. O assédio exercido pelas drogas, em seu viés de tráfico ou consumo, aliado a fenômenos de sociedade tais como o individualismo e o consumismo, apresenta-se ao público jovem como uma alternativa sedutora na busca por reconhecimento e por ascensão social.

Instadas a responder à escalada da violência e à degradação dos laços sociais, as políticas públicas têm – ombreadas pelo sistema de Justiça – o duplo desafio de, ao agir tempestivamente para a responsabilização do adolescente infrator, contribuir para o resgate e a manutenção do sentimento de segurança e paz nas cidades.

Nesse sentido, Minas Gerais desenvolveu, em 2008, em Belo Horizonte, a experiência pioneira do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Autor de Ato Infracional, também conhecido como CIA.

Pautado na necessidade imperiosa de interlocução institucional, o CIA reúne, em uma mesma estrutura física e logística, todos os atores responsáveis pelo processo de responsabilização do adolescente. Desse modo, desde sua apreensão pela Polícia Militar, seguida pela apuração da conduta, realizada pela Polícia Civil e, posterior representação e decretação da sentença pelo Ministério Público e Poder Judiciário, respectivamente, o adolescente é levado a responder pelo cometimento de um ato infracional.

A metodologia prevê ainda que a estrutura abrigue a Defensoria Pública, fundamental no que se refere à efetividade das garantias previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente – nota-se aqui, particularmente, a excepcionalidade das medidas de privação de liberdade. Uma vez decretada a sentença, os órgãos responsáveis pelo acolhimento do adolescente – o Estado, nos casos passíveis de acautelamento; a prefeitura municipal, para as medidas em meio aberto (liberdade assistida e prestação de serviço à comunidade) – passam à execução das medidas socioeducativas, que segue igualmente pautada pela interlocução com o sistema de Justiça.

Nos quatro anos de atividade dessa iniciativa, os números advindos dela são importantes e deixam augurar uma melhoria substantiva para o sistema socioeducativo. Em média, apenas 12 horas separam o ato infracional cometido e a imposição de uma medida socioeducativa. Tal medida, em suas dimensões de responsabilização, reeducação e reparação, visa tanto reprovar a conduta infratora quanto propiciar ao adolescente alternativas viáveis à permanência ou retorno ao itinerário infracional.

A tempestividade da resposta permite, assim, ao adolescente compreender o quão danoso é seu ato para um tecido social que o envolve e o ultrapassa – e para o qual ele retornará após o cumprimento da medida socioeducativa. Para a comunidade, a tempestividade restitui o sentimento de confiança nas instituições e no próprio conteúdo simbólico do direito, responsável pela construção e manutenção de um mundo comum a todos os cidadãos.

Exitosa, a experiência do CIA será replicada, neste ano e em 2014, em quatro municípios mineiros: Juiz de Fora, Governador Valadares, Montes Claros e Uberlândia.

CAMILA NICÁCIO é Subsecretária de Atendimento às Medidas Socioeducativas da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) de Minas Gerais.

Síndrome de Estocolmo na Política

Li o excelente artigo do jornalista Daniel Polcaro no jornal de Passos, Folha da Manhã, e compartilho para maiores reflexões.

Ele fez uma excelente analogia sobre a Síndrome de Estocolmo (vejo o que é aqui) e a relação do povo brasileiro com políticos.

Síndrome de Estocolmo

Por Daniel Polcaro

Um produto é comercializado dia 7 de outubro: a sua confiança, a sua capacidade de crer no próximo, a sua vontade de ver melhorar o lugar que vive. O voto é apenas uma forma representativa.

Assim como a televisão não vende polegadas ou peças – e sim conteúdo audiovisual —, não é o voto que é comercializado, é sua participação na decisão em conjunto com a comunidade, que aponta nomes majoritários para comandar a cidade.

Acreditemos sim em homens e mulheres que possam transformar, mudar esse cenário político nacional impregnado de sujeira. Acreditemos em quem doa sua honestidade, até então somente como cidadão, para a administração daquilo que, teoricamente, é de todos. Acreditemos em figuras que apesar de uma campanha visual modesta, esteve ao lado do vizinho e sempre ajudou seu bairro sem nenhum interesse.

A degradação da política – que atinge todos os partidos de uma forma avassaladora – será alterada aos poucos: porque o mal voltar para o lado do bem demora cem vezes o tempo que o bem gastou para ir para o outro lado. O processo é longo, mas vai acontecer. O importante é começar.

Este texto não faz campanha e não critica qualquer candidato. Apenas visa lembrar o sequestro da Coisa Pública por verdadeiros criminosos, trajados de políticos, quando a função de um agente público seria estar empenhado para usar da melhor maneira possível o dinheiro comunitário, prestando contas reais.

O que se vê eleição pós eleição no Brasil é a Síndrome de Estocolmo da política. A afeição criada por criminosos que nada diferem de traficantes de drogas e assaltantes de banco fazem de cada habitante um refém, que tenta se libertar a cada quatro anos, mas que a maioria (quiçá ludibriada pela cosmética audiovisual da campanha) se encarrega de colocar de volta. A defesa de quem praticou o mal (sob o eufemismo do ‘rouba, mas faz’) representa a incapacidade de encontrar outro candidato, que consegue fazer sem ter a outra ‘qualidade’ embutida.

Se o povo merece o governo que tem, a maioria está correta e seria totalmente errônea essa colocação de que ladrões voltam ao poder. Mas a Síndrome de Estocolmo – expressão de Nils Bejerot, criminólogo e psicólogo, criada durante assalto de cinco dias, em 1973, na capital da Suécia — explica.

Como forma de defesa, as vítimas tentam se identificar com os sequestradores com medo de sofrer retaliações. E gestos singelos (como dar um prato de comida no cativeiro) é totalmente amplificado, causando uma afeição por quem na verdade está praticando o mal.
Nós merecemos mais do que gestos singelos.

DANIEL POLCARO PEREIRA, jornalista, é editor do Clic Folha (polcaro@folhadamanha.com.br)

Também é blogueiro. Aqui.