O Golpe na Educação

50anosgolpe

Hoje completam-se 50 anos do golpe militar no Brasil.

Acredito que ainda não mensuramos corretamente os prejuízos desta nefasta intervenção. Sentimos hoje claramente os efeitos do êxito pela finalidade da “casa grande” que é manter a ignorância e o atraso, a subserviência e a obscuridade.

A solução para os problemas humanos – não só brasileiro – passa necessariamente pela educação, que era a reformulação proposta por Paulo Freire e Darcy Ribeiro. Assim, o golpe foi na educação, muito mais no que na democracia ou em um sistema de governo.

Como não poderia ter escrito texto melhor, reproduzo a excelente reflexão do sociólogo Márcio Nogueira publicada no jornal Folha da Manhã que vivenciou os fatos e tem uma opinião muito mais serena e adequada do que os “achismos” que temos visto por aí.

Cinquenta anos depois

Por Marcio Nogueira

 Reporto-me ao dia 31 de março de 1964. Eu era o presidente da União Passense dos Estudantes Secundários, UPES, entidade criada em novembro de 1961. Fui seu segundo presidente sucedendo a Ivan Vilela de Andrade um de seus idealizadores e fundadores.

Jânio Quadros, eleito presidente do Brasil em 1960, tinha como objetivo eliminar a corrupção no país. Oriundo do PDC, partido de pouca expressão, contrariou a tudo e a todos e seu mandato desaguou em sua renúncia justificada como oprimido por “forças ocultas.” Conjectura-se que seu objetivo era o de voltar nos braços do povo e instalar uma ditadura na qual seria o grande líder. Fracassou. João Goulart era um “getulista”, eleito vice presidente independentemente de Jânio e a duras penas o sucedeu.

Jango, como era conhecido, propunha uma série de reformas, dentre elas a reforma agrária e a urbana. Capitaneado pelos educadores Darcy Ribeiro e Paulo Freire estava implantando uma ampla reforma na educação e a completa erradicação do analfabetismo no país.

Seguramente a reforma da educação e a erradicação do analfabetismo desagradava as elites dominantes de todo o Brasil e também de Passos, nossa cidade, a exemplo do que fora a libertação dos escravos em 13 de Maio de 1888 e a implantação do salário mínimo, no Governo Vargas.

A reforma da educação no Brasil e a erradicação do analfabetismo levou o movimento estudantil de Passos a simpatizar com o Governo João Goulart. Nossos objetivos eram claramente do aperfeiçoamento da educação e da melhoria da vida no campo e na cidade, através da alfabetização e escolarização da grande massa popular.

Não havia entre nós defensores do comunismo ou comunistas confessos. Pautávamos nossa luta na busca por melhorias no ensino, sua gratuidade e universalidade. Jango desfraldou essa bandeira e, evidentemente, essa ideia nos agradava. Nossa preocupação não era somente com o ensino. Pensávamos além. Nossos ideais eram sadios e desprovidos de interesses espúrios. Queríamos sim o progresso do povo brasileiro. Queríamos sim que cada brasileiro tivesse casa e comida. Que cada brasileiro fosse no mínimo alfabetizado e tivesse boa saúde. Queríamos sim cada brasileiro tivesse emprego, bons salários e segurança financeira. Queríamos sim que cada brasileiro tivesse recreação e lazer. Queríamos sim que cada brasileiro professasse sua fé com liberdade. Queríamos sim que cada brasileiro pudesse ir e vir quando e para onde quisesse.

A UPES de 64 cumpria seus objetivos sociais distribuindo cadernos, livros, cultura, esporte e lazer. Orientava estudantes mais necessitados a conquistar os seus projetos de vida e buscava auxiliar, dentro da realidade da entidade, àqueles que necessitavam de atendimento médico e odontológico.

Pelos nossos ideais e pela nossa conduta de ajuda ao próximo éramos rotulados de comunista. A elite passense nos elegeu como adversários. Em 1964 fomos denunciados e perseguidos. Alguns de nós fomos presos e nossas prisões foram aplaudidas por muitos reacionários da cidade.

O golpe de 64 perdurou. Fizeram desenvolvimento do Brasil à custa de empréstimos externos, da venda de nossas riquezas e de nossa soberania. Um ministro dizia que o governo acumulava divisas, “formando um bolo” que um dia seria repartido em benefícios sociais. Esse “bolo”, se foi partido, nunca foi repartido. Se foi repartido o foi entre poucos. A repartição da riqueza brasileira só veio a acontecer nos governos de FHC, Lula e Dilma que ainda recebem críticas dos herdeiros dos reacionários de 64.

Esquecem os herdeiros do golpe de 64 que só em 1994 Itamar Franco estancou a inflação. Que FHC deu início à implantação de políticas sociais efetivas. Que Lula e Dilma ampliaram esse jeito de fazer política. Que grande parte da população que vivia na linha da miséria, hoje tem emprego e escola. Que a renda que auferem enriquece comerciantes, fazendeiros, banqueiros e industriais, muitos desses, críticos do sistema vigente.

As bolsas sociais não são esmolas. É transferência de recursos públicos para aquelas camada da população que os políticos do passado ignoraram, talvez por conveniência própria, não lhes ofertando escolas e empregos dignos. Hoje estamos resgatando o que foi negado durante séculos à nossa população pobre.

Atualmente assistimos àquelas classes sociais que há cerca de vinte anos atrás mendigavam, ou que pouco possuíam, terem acesso a escolas, a automóveis, a roupas boas, a bons salários, a compras em shopping centers, a planos de saúde, a casa própria. Enfim estamos assistindo participando de uma ascensão social que aconteceu poucas vezes no mundo. Não há como negar essa evidência e essa evidencia gera ciúme e inveja daqueles que sempre dominaram o país.

Imaginem vocês se o golpe militar de 64 não tivesse interrompido nossa caminhada democrática. JK voltaria e implantaria sua ideia de desenvolver nossa agricultura 50 anos em apenas cinco! Seríamos hoje, sem dúvidas, o maior fornecedor de alimentos do mundo, coisa que os Estados Unidos nunca quis e, em consequência, promoveu a ditadura de 64. Contra essa ingerência fomos contra sim, e somos até hoje.

A liderança estudantil passense de 64 não era comunista! Éramos idealistas e ponto final. Que sofram as suas agruras aqueles que denunciaram e perseguiram nossos jovens, levando sofrimento e agonia para um grande número de famílias de nossa terra. Nunca esqueceremos o que sofremos, apesar de perdoarmos aqueles que nos fizeram sofrer. Muitos, ainda vivos, sabem quem foram os nossos algozes.

FONTE: http://www.clicfolha.com.br/noticia/32722/cinquenta-anos-depois

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