Duas Visões – Ordem e prisão


Ordem e prisão

A ordem das coisas

DEFENESTRANDO/Daniel Polcaro

O trágico convive com o cômico no Brasil como mocinho e mocinha que vivem o maior dos amores.

Nos últimos dias, dois assuntos políticos permitem uma análise sobre a ordem confusa das coisas, que se escondem e aparecem em locais que nem o Google é capaz de encontrar.

No primeiro caso, um político condenado por um país vizinho que recebe auxílio ‘oficial’ do governo brasileiro para fugir.

No segundo caso, político brasileiro condenado que sai da cela para defender de terno e gravata a sua vaga que, pasmem, ainda existe.

Deixando de lado o absurdo da falta de justiça dos homens em ambos os casos, atento-me às questões fronteiriças que se trata os seres humanos, ora encarnados como ladrões, ora agentes públicos do bem.

Para Immanuel Kant (1724-1804) existem dois mundos: nossos corpos e o mundo externo. Ou seja, os corpos do senador boliviano e do deputado federal querem a liberdade, mesmo que todo o potencial dessa ferramenta tenha sido usada para lesar um grande número de pessoas.

O mundo interior deles não compreende o mundo exterior. E vice-versa.

Essa fronteira dos dois mundos, que pode ser conhecido provisoriamente como ego, faz a ordem das coisas coletivas serem tão absurdas.

Adam Smith (1723-1790) dizia que o homem é um animal que faz barganhas: ‘as pessoas agem por interesse próprio’.

E o interesse próprio é tão grande que o coletivo só será beneficiado se a solução para o desejo interior necessite passar pelo outro para ter sucesso.

Na psicologia, Stanley Milgram (1933-1984) dizia que as pessoas agem conforme as ordens que recebe: ‘durante a guerra, um soldado não questiona se é bom ou ruim bombardear uma aldeia’.

Ou seja, o soldado quer preservar o seu mundo interior (corpo) independentemente do mundo exterior ser prejudicado com isso. A decisão individual de uma só pessoa, movida pelo seu interesse por poder, desencadeia um mal maior, quando cada um desempenha uma guerra contra o mundo todo.

A sociedade enquanto individualista contribui para o atraso espiritual das pessoas que a compõe.

Explico: se a sociedade não fosse tão consumista, seria mais fácil se desapegar dos bens materiais. Ou melhor, a maioria não sentiria necessidade de obtê-los de forma lícita ou ilícita.

Se a sociedade não fosse tão egocêntrica, trataríamos todos como irmãos, independente de raça, cor ou nacionalidade.

Se a sociedade não fosse tão mesquinha, daria oportunidade e não pena do outro necessitado, em falta, em recomposição como um ser atuante.

O capitalismo não é o mal. Ele seria a melhor forma da vida em sociedade se as pessoas não quisessem mais do que precisam e nem que, para ter algo mais, precisasse passar por cima dos outros.

Enquanto humanos e desgastados pela podridão de algumas atitudes dos outros, comemoramos em ver um ladrão (principalmente políticos) atrás das grades, mas enquanto seres com alma sabemos que o sentimento de vingança e destruição é infinitamente prejudicial. O caminho claro e evolutivo seria da reconstrução, inclusive do caráter, juntos.

Antes do progresso, ordem por favor.

A pior prisão

ELDER CARDOSO

Devo deixar bem claro que não considero este modelo de democracia o ideal. Também não considero que qualquer Poder Judiciário do planeta tenha a última palavra, ou que suas decisões representem a verdade.

Às vezes determinados vereditos podem até coincidir com a versão verdadeira, mas uma decisão judicial é somente uma decisão judicial. E nem sempre uma decisão judicial é uma decisão de justiça.

Por isso que o maior, melhor e talvez único juiz seja de fato a própria consciência.

O acordo inconsciente ou consciente que orienta a vida em sociedade busca um meio termo para que todos consigam encontrar um ponto comum para vivermos da melhor forma possível.

Para balizar, limitar e controlar os interesses individuais que eventualmente podem conflitar com os interesses da maioria, estabeleceu-se o que conhecemos por leis.

Para cada tipo de conduta há determinadas consequências, considerando o nível de reprovação pela sociedade. Ofensas leves têm consequências brandas, para delitos e ofensas graves o grau de reprimenda também é grave.

Atualmente, para a maioria dos países, a maior punição existente é justamente a pena de prisão, a segregação e isolamento da maioria das pessoas que compõem a sociedade.

Aqui começa a confusão, porque a maioria da sociedade vê esta pena de segregação para quem lhe vive à margem como uma punição pura e simples. É como se fosse uma vingança pelo comportamento inadequado.

Ocorre que a pena aplicada tem duplo efeito: punir e também reeducar (ou educar em alguns casos), para que o membro volte a conviver em sociedade de acordo com os valores estabelecidos pela maioria.

Este caráter dúplice é a realização do princípio de que todos são iguais perante a lei, pois se somos iguais não podemos excluir determinado membro, mas apenas segregá-lo até que tenha condições de voltar ao convívio.

Casos como os que foram destaques da mídia nesta semana – do senador boliviano Roger Pinto Molina e do deputado brasileiro Natan Donadon – refletem uma outra vertente, a dificuldade de considerar que TODOS são iguais perante a lei, mesmo os pares.

O que se vê é o compadrio e a condescendência para livrar uma pessoa que considera seu igual.

É resquício de feudalismo e de uma era que nobres não eram punidos por seus maus feitos. Era esta que acabou oficialmente, mas que vige ainda arraigada em quem detenha o poder.

Creio que psicologicamente existe um medo inconsciente de que se prendem uma pessoa que é considerada membro do poder, qual a garantia que terão que não irão prendê-los quando por sua vez forem julgados?

O livramento não é nem questão pessoal, mas corporativa e defensiva de uma classe, de um valor torpe fruto de egoísmo e orgulho.

No fim e no fundo, nada mais é do que a ignorância do que sejam valores morais, e até mesmo da identificação da missão de vida, da ausência de uma crença em valores coletivos, sociais e espirituais.

Espiritualmente, a pior prisão e quiçá única existente, é justamente a prisão da própria consciência; consciência de ter agido mal, do próprio comportamento errado e da fuga de responder e assumir as consequências pelas próprias ações, que reflete na vida social como um todo.

Infelizmente, é simples e fácil fugir das responsabilidades por aqui; mas é da lei que cada um colha o que plantou, que responda exatamente de acordo com sua consciência, aqui ou em qualquer esquina do Universo.

Simples e direta é a lei de causa e efeito.

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