Duas Visões – Negligência do poder público

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De quem é a culpa

ELDER CARDOSO

As recentes manifestações do povo brasileiro – que ficaram conhecidas como manifestações de junho – demonstraram um sentimento comum de insatisfação.

E curiosamente não houve uma ojeriza ao Estado, em uma espécie de pedido de anarquia (aqui entendida como forma de exercício do poder), ou mesmo uma modificação de sistema de governo, ou de pedido de saída do governo.

A tônica geral dos pedidos era uma cobrança de mais eficácia do Estado na prestação de serviços públicos, de mudança de prioridades dos administradores.

Segundo a Constituição brasileira em vigor o povo, através de seus representantes institui um “Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna”.

Porém, há casos emblemáticos da distorção do discurso e da prática.

Viviane Correia Ribeiro de 17 anos morreu no Hospital Geral de Camaçari, na Bahia, após dar entrada com um quadro de infecção respiratória. É um típico caso de omissão do Estado ao não oferecer tratamento médico.

Mas o que seria lamentável é mais trágico ainda, porque a garota estava doente porque adquiriu HIV por negligência em um hospital público na cidade de Salvador quando tinha 3 anos de idade.

Isso mesmo que você entendeu: a menina foi vítima de negligencia quando tinha 3 anos de idade, e novamente com 17 anos foi morta em razão deste descaso.

Segundo filósofos o Estado é a representação da vontade da sociedade, já que por natureza somos seres sociais, criados para nos relacionarmos.

Curiosa também a forma de enfrentar o problema, no caso a família conseguiu ganhar em diversas instâncias do Poder Judiciário indenização para minimizar os danos sofridos, mas o Estado da Bahia recorre insistentemente.

As notas oficiais do Estado representam claramente o quanto é surreal esta representatividade: a procuradoria informa que recorreu das decisões, e a secretaria de saúde disse que a menina chegou muito mal e não deu tempo de ser atendida. No entanto, a imprensa publicou filmagem feita da família mostrando o pai desesperado fazendo massagem cardíaca e gritando desesperado por ajuda.

A visão que tenho é que estamos em uma sociedade na qual as pessoas tentam mostrar que são perfeitas, que não falham. E gastam uma enorme energia para fugir das próprias responsabilidades.

O que interessa é nunca assumir o mal feito, a qualquer preço. E em se tratando de gestores públicos, jogue isso para a “administração anterior”.

Ora, mas o Estado não somos nós? Por acaso o Governador, o Procurador, o Médico, a Viviane e seu Pai não somos todos irmãos?

Enquanto parecermos crianças dizendo que “não fui eu” e procurando alguém em quem colocar a culpa, viveremos em uma sociedade imatura, irresponsável e que vive fazendo “travessuras” nada infantis, pois que estas matam e destroem a vida das pessoas, e não têm graça nenhuma.

Sob medida

DANIEL POLCARO

Caso escabroso do sistema público de saúde brasileiro causa um sentimento de revolta tão grande que falar algo para a família da vítima que não seja a continuidade da vida no plano espiritual soaria como piada.

E de fato a única verdade que nos conforta diante de absolutamente tudo que nos acomete é a real brevidade da vida com um agasalho material, perecível, sujeito a todo tipo de intempéries de uma sociedade resultado da ação de tantos outros.

O caso, resumidamente: uma menina de três anos foi contaminada pelo vírus HIV durante negligência de hospital da Bahia, recebeu indenização de R$ 100 mil e 4 salários mínimos por mês. Agora aos 17 anos, falece após outro ‘atendimento’ médico.

Poderíamos vociferar que as autoridades deveriam ser atendidas pelo SUS, que se o Lula tivesse tratado o câncer na eterna fila de espera já teria morrido, que se não fosse o hospital cinco estrelas Albert Einstein, José Sarney e companhia não estaria mais causando discórdia entre nós.

Da arquibancada, que só grita e não faz, é o melhor discurso. Realmente. Mas a atitude faz de qualquer fala mera poeira. Fazer, no caso saber votar e ter uma conduta de vida correta (sem nem a menor das corrupções pessoais), é essencial para a melhora coletiva da sociedade.

Para Protágoras (c. 490-420 a.C.), ‘o homem é a medida de todas as coisas’. Ou seja, a sociedade é a medida do homem. A sociedade, coletiva, se torna no singular, numa só medida de todas as ações.

É fato que existem pessoas que tentam puxar a balança da sociedade para o lado bom, mas ela só não vira de lado por pessoas acomodadas, que não acham que mudará o mundo sozinhas.Mudar o mundo seria pretensão demais e se corre o risco de tentar o muito e não fazer o pouco que lhe cabe. Mas a mudança interior, que o espiritismo chama de ‘reforma íntima’, é de uma representatividade fabulosa, ‘contaminando’ pelo exemplo um bom número de pessoas.

O exemplo sempre foi determinante para a transformação do ser humano.

Ele se torna necessário numa sociedade carente de dirigentes que sejam bons exemplos, carente de ídolos que conseguem transmitir a conquista pessoal para o restante da sociedade. E depois de Ayrton Senna ninguém conseguiu assumir esse posto, mesmo com tantos jogadores de futebol candidatos (apenas candidatos) ao posto de ídolo absoluto.

Isso porque a fama não quer dizer esse sentimento de vitória do eu. Apesar também de ser esportista, o que Senna (mesmo com o auxílio da mídia) conseguiu passar é maior, que conseguiu se desprender do vencedor de corridas. Conseguiu se firmar no campo da determinação, na possibilidade real de realizar os sonhos desde que realmente pilotamos o projeto com vontade.

Viktor Frankl (1905-1997) dizia que ‘o sofrimento deixa de ser sofrimento quando ganha sentido’. E diante de tantos acontecimentos inaceitáveis, cabe somente aceitarmos o que continua ocorrendo pela ação coletiva, a soma de infinitas pequenas atitudes interiores.

O espírito da jovem baiana evoluiu, cumpriu seu propósito de melhoramento nessa encarnação. Um dia o sentido chega aos corações de todos. E o acreditar na vida eterna se torna cada vez mais a garantia absoluta de que a dor é transitória, passageira.

DANIEL POLCARO é jornalista e administra o Defenestrando.

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