Duas Visões – O teatro e a crueldade humana

 

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O TEATRO DE CADA DIA

Você nunca se viu duvidoso do que o sujeito de terno e gravata te diz antes de alguma novela no meio da noite? Sem olhar a tela luminosa no centro da sua sala, volta rapidamente os olhos para ela para saber se realmente ainda está no noticiário ou se trata da ficção da dramaturgia brasileira?

A lista de fatos reais estarrecedores é infinita. Saiba você que o maior jornal do país, a Folha de S. Paulo, publica cerca de 300 notícias por dia. Todavia, estão produzidas, prontas para serem veiculadas, um número três vezes maior. Amigo leitor, você estará muito mal informado com relação ao mundo por mais que fique o dia inteiro em todos os portais noticiosos.

O comportamento intelectual sadio diante de um avalanche informativa sem igual é da seleção. Acredita que anos atrás uma edição impressa do The New York Times chegava a ter 1,5 mil páginas, 2 milhões de linhas tipográficas, 12 milhões de palavras e 5,5 quilos de papel? É o que uma pessoa, séculos passados, era capaz de absorve durante toda sua vida.

Nas atrocidades cotidianas desse mundo que parece ser mais violento (por que hoje ela é noticiada numa velocidade e num volume descomunal), seleciono somente uma para analisar junto com vocês.

Rebelião no início da semana, em penitenciária de Itirapina, no interior paulista, deixou dois mortos. Foram 22 horas de motim, com a retenção de 68 famílias dentro da unidade. As vítimas fatais foram decepadas e tiveram os corações arrancados. Tão ‘normal’ que a notícia ganhou apenas rodapé dos jornalões.

Mas para a maioria das pessoas esse cenário é tão dantesco que o noticiário vai se tornando inimigo, causa medo e aprisiona o espectador em casa (isso quando ele não vê uma notícia de ladrões que invadem residências, roubam e até estupram familiares).

Erving Goffman (1922-1982) diz que a vida é uma representação dramática. Segundo ele, a interação social pode ser comparada a uma peça de teatro. Existem o palco onde atuam nossas pessoas públicas e os bastidores onde desenrola a vida privada. Só que a plateia, todos em seus lares com suas telas luminosas, ficam ansiosos para saberem o que acontece no mundo mesmo conseguindo captar uma poeira de tudo.

Mas e a vida humana, perdeu o seu valor, como gostam de comentar os idosos? Peter Singer (1964-      ) diz que no sofrimento os animais são nossos iguais: ‘o valor da vida é uma questão ética notoriamente difícil’. Cada um tem a sua e nenhum parâmetro existe para saber se um coração arrancado é mais importante do que uma artista que está passeando com seu cachorrinho na praia.

Basta analisar a história, amigo leitor, para concluir que o hoje é a era menos violenta de todos os tempos. A avalanche de notícias sem critério algum faz com que nos sufoquemos de informações sem utilidade nenhuma. Selecionar é essencial, mesmo sabendo que a verdade é sim necessária para nossa evolução pessoal e espiritual.

A escola do espírito na terra está mais fácil do que nunca, acredite. Nos que complicamos, nos que queremos saber mais da cabeça decepada do que a vida triunfando no nascimento de uma criança na maternidade.

Estamos longe, muito longe mesmo do mundo ideal. E pessoas que encarnam gladiadores para sobreviver no tempo atual precisam sim ser amparadas, orientadas. Mas olhemos, também para inspirarmos mais nosso cotidiano, o que de maravilhoso (e que é muito maior do que a ‘ruindade’) que colore o nosso dia a dia e não está no noticiário.

O teatro e a dramaticidade da vida tem que ser diferente. Sempre.

DANIEL POLCARO é jornalista, analista de redes sociais, webwrite e administra o Defenestrando.

CAMPEONATO DA CRUELDADE

A cada dia lemos e vemos notícias que chocam pela violência. Esta semana em uma rebelião no interior de São Paulo dois detentos foram mortos e tiveram as cabeças decepadas e corações arrancados.

Já vimos na história demonstrações de crueldade em várias oportunidades, e para ficarmos somente com histórias domésticas, veja-se o caso de Lampião e de Zumbi dos Palmares.

Nestes dois casos a crueldade foi cometida pelo Estado para de forma emblemática servisse como exemplo a impedir outras pessoas de iguais tentativas.

Mas ultimamente há uma crescente demonstração de crueldade em situações corriqueiras.

Até parece que há um campeonato de crueldade que nada mais é que um campeonato da insensatez.

Não sei se a psicologia consegue explicar esta necessidade de lesar outro ser da sua espécie intencionalmente. Esta pessoa pode ser uma espécie de psicopata ou sociopata. Mas eu acho mesmo é que a intenção é chocar a sociedade em uma sórdida e infantil demonstração de poder.

“A violência é tão fascinante e nossas vidas são tão normais” cantou a Legião Urbana em Baader-Meinhof Blues, o próprio título da canção uma referência a um grupo alemão de luta armada, mas que defendia uma ideologia, concordemos ou não. Mas o que defendem os nosso cruéis contemporâneos?

Há outras explicações um pouco mais objetivas para estes fatos: o número da população mundial, que naturalmente aumenta os casos de violência; a facilidade dos meios de comunicação, que ainda se dedicam a satisfazer pessoas que se comprazem em consumir a crueldade, criando então o outro lado, alguém que quer ser o superstar da crueldade da vez.

O que é mais importante é como as demais pessoas recebem estas demonstrações de crueldade. Com indiferença ou com indignação? Achando culpados ou tentando compreender que tipo de vida elegemos de modo a criar este macabro espetáculo?

Arthur Schopenhauer (1788- 1860) afirma que nestas situações em meio à maldade, ao egoísmo e às dores, existe a compaixão como parte integrante da natureza humana.

Não acho que vivamos uma situação de descalabro. Isso sempre existiu. O que nunca tinha existido eram demonstrações de compaixão e de solidariedade, hoje também bastante comuns, já que também integrantes da natureza humana.

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” já afirmou Ele, que entendia das coisas, apontando um único caminho educativo para nossa sociedade, não misericórdia com a vítima ou para com os meus, mas para com todos os que necessitam de perdão e de compreensão.

O curioso desta história são os expectadores e comentadores que acham que a violência é do outro, a crueldade é do outro, nunca nossa ou dos nossos.

Ora, com um simples comentário sustentando que quem fez isso ou aquilo deveria morrer, que bandido bom é bandido morto, quando o meu pensamento toma determinado partido em situações de guerra ou crueldade, eu estou fazendo o quê, senão alimentado o clima de crueldade dominante (por enquanto) no mundo?

ELDER CARDOSO é advogado e escreve sobre direito e espiritualidade.

 

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