Duas Visões – Eleições, a arte da escolha

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NÓS NAS URNAS

Votamos verdadeiramente em que parece mais conosco. Impossível, inconcebível sair de casa num domingo de eleições e dar o direito a uma pessoa incompetente, corrupta e com uma história maculada – a não ser que, mesmo em pequenos detalhes do cotidiano, também não sejamos iguais ou tenhamos as mesmas tendências.

Nos enxergamos nas urnas. E o óbvio é que as pessoas que nos representam (e agora protestamos dizendo que não nos representam) são traduções das nossas convicções pessoais que negamos que sejam iguais às dos políticos.

Há sim de ressaltar que talvez você não faça parte da maioria e realmente tenha votado em algum candidato diferenciado, sem os vícios da categoria. O que não se pode concluir é que em todas as vezes você foi mais inteligente e perspicaz do que outro eleitor. Em algum momento, pela falta de opção ou conveniência, acabou votando em alguém que, definitivamente, não merecia a sua confiança.

Antes mesmo da onda de manifestações, a política brasileira já vinha dando pequenos sinais de mudanças para melhor. A reconstrução da moral é longa e os sinais de melhorias serão sentidos, de fato, daqui algumas décadas. Não se pode é perder o foco, algo considerado normal para o Poder Público, trocado (por você) de quatro em quatro anos.

Martin Heidegger (1889-1976) afirmou que ‘nós próprios somos as entidades a ser analisadas’. E quando escolhemos um candidato, escolhemos nós mesmos (repito: é inconcebível votarmos naquilo que não somos). Seria como ir trabalhar com a roupa do seu vizinho.

Importante sim ressaltar a falta de opção, apesar desse ser um argumento nada sólido, já que sempre existem pessoas novas tentando uma vaga, mas que acabam não conseguindo, pois votamos em quem tem mais chance de derrotar quem odiamos – e que estão se revezando nos cargos por décadas. A cultura de torcer contra alguém e não a favor já cria um ambiente de energia negativa – e faz com que pessoas transformadoras não possam chegar onde é necessária uma faxina com urgência.

O mundo espiritual atua diretamente sobre os governantes, que podem ajudar ou prejudicar mais pessoas do que você. Não que eles sejam mais importantes, mas ocupam vagas que, teoricamente, influenciam a vida de mais pessoas do que trabalhadores tratados como comuns. O bem e o mal estão nos auxiliando e nos desvirtuando incessantemente, e um amparo espiritual reforçado deve existir para homens públicos como garantia de humanismo, coletividade.

Leon Festinger (1919-1989) dizia que ‘um homem de convicções resiste a mudanças’. Quem tem coragem de dizer que não tem convicção? Ninguém. Então porque não resistimos a mudanças, continuando a votar em alguém que você sabe que vai perder, mas que se assemelha ao seu caráter? Votou no outro que pode derrotar quem você não gosta? É porque você torce contra as pessoas e não a favor do bem. É como se torcesse para o que você considera menos mau derrotar o que é mais malvado.

A confiança é a mais poderosa base decisória. Ou saímos para rezar a algum santo, entidade ou à uma Espiritualidade Maior sem que confiemos neles?

Difícil de acreditar que não temos responsabilidade nenhuma pelo o que a política brasileira se tornou, sabendo que cada um que está nos representando conseguiu chegar ao poder legitimamente com as leis que regem o país.

Apertamos o botão verde nas urnas olhando a nossa foto lá.

DANIEL POLCARO é jornalista e administra o Defenestrando.

ESCOLHER O QUÊ?

Somos o produto de nossas escolhas, sempre. Se você não escolhe, é levado pelas escolhas de outro. E ainda assim, teve uma escolha consciente ou inconsciente de se abster.

Ao lado das ebulições sociais por que passa o Brasil, já se pensa em eleições.

É através dela que serão escolhidos os próximos governantes do Brasil. Mas é muito bom que fique claro que o que ocorre são escolhas dentre opções definidas, dentro do que chamamos modelo democrático brasileiro.

De fato, a democracia não só no Brasil, mas em quase todo o mundo que se diz adotar este regime de governo, é feita de forma direta ou representativa. A democracia direta ocorre quando as decisões são tomadas ouvindo a vontade popular através de mecanismos de consulta. A democracia representativa é esta pela qual elegemos representantes para dizer qual é a nossa vontade.

Com o crescimento da população, a democracia direta vai se tornando quase impossível, e os casos históricos existentes são mais emblemáticos do que factíveis.

É justamente por causa destes modelos existentes que a situação começa a complicar.

Há uma crise de representatividade na qual o povo não sente que as pessoas que escolhe estão lá para dizer a sua vontade. Justamente por que o interesse pessoal do “representante” supera o do representado. Ou pior, quando o “representante” defende interesse de determinado grupo econômico que o colocou.

Sim, este processo democrático permite esta anomalia.

Jean-Jacques Rousseau defende em Do Contrato Social que o povo é o detentor da soberania, não uma pessoa. E que a vontade geral do povo deve prevalecer através do sufrágio (voto), mas que esta vontade geral pode errar.

Eis aqui, a meu ver, o grande equívoco de nosso tempo, pois somos levados a escolher entre uma pessoa e outra com balizas muito estreitas. Qualquer que seja o candidato está atrelado a modelos destinados a manter no poder classes que se tornaram verdadeiras aristocracias ou próximas de uma realeza, desvirtuando o ideal republicano.

Então o processo de escolha é ilusório e fictício, criando no povo apenas um efeito psicológico de participação através do voto.

E este processo que não faz sentido para a maioria, tende simplesmente a transformar o processo em um simples jogo: “E aí? Ganhou ou perdeu a eleição?”.

Ao lado disso, procedimentos de venda ou troca do voto são os responsáveis por perpetuar este círculo.

Penso que qualquer mudança possível e eficaz passa por eliminar traços de atraso moral e espiritual em todos nós, devendo nos orientar pela busca do bem comum, pois até mesmo no processo de escolha visamos o interesse pessoal.

Infelizmente a sociedade, ainda e por enquanto, está orientada pelo egoísmo, pela defesa de grupos e de interesses meramente financeiros ou pessoais.

E até que se crie uma fórmula de combater isso, o processo de escolha será apenas de opções dentro de um sistema falido, que até pode melhorar em alguns setores, mas faltará sempre algo mais.

ELDER CARDOSO.

 

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Um pensamento sobre “Duas Visões – Eleições, a arte da escolha

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