Duas Visões – Brasil, o ex-país do futebol?

 

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TERRITÓRIO FIFA

Moradores de cidades que são sedes da Copa das Confederações tiveram que se acostumar nas últimas semanas ao Território Fifa, uma zona futebolística protegida com todas as forças de segurança possíveis. Intransponível, intocável, sagrada. Uma terra prometida para quem tem um ingresso.

Depois de estranharmos grupos de militares brasileiros altamente treinados atuando em áreas de risco para buscar a paz em outros país, encontramos um exército de homens (que sobrava nos quartéis, ao contrário do anunciado ante anseio da população por mais policiamento) protegendo uma nação – criada temporariamente em regiões de capitais brasileiras – por uma instituição suíça, que rege o futebol mundial.

Mas a Fifa diz que não pediu para a Copa ser no Brasil. Nós que imploramos. Fato. É fato também de como um evento esportivo de tal magnitude é usado para que as autoridades desviem (não só dinheiro) atenção do que ocorre, de fato. A conhecida política do Pão e Circo se mostrava presente até então.

Só o pão permanece. As políticas sociais populistas e poucos sociais (e com assistencialismo de sobra) das autoridades brasileiras são compensadas no espetáculo. E é o que o futebol fornece. O futebol para o brasileiro é uma questão social, é uma consulta psiquiátrica, é a fome esquecida para ter a camisa do time, para comprar a entrada para o estádio, para sentar em frente a TV.

Se Kurt Lewin (18890-1947) considera que só compreendemos o sistema quando tentamos transformá-lo (‘quando entende que o seu destino depende do destino do grupo inteiro, o sujeito sente vontade de assumir uma parte da responsabilidade pelo bem-estar geral’), Solomom Asch (1907-1996) revela que a tendência à conformidade social pode ser mais forte do que os valores ou percepções básicos das pessoas.

Ou seja, as pessoas podem até ir protestar, mas alguns irão só depois do jogo acabar. Não concordam com os gastos da Copa, mas estão tão arraigados na identidade do futebol com o cotidiano brasileiro que acabam aceitando, porque a mídia (que recebe cotas publicitárias milionárias) mostra que a festa deve existir apesar de tudo.

E é esse ‘apesar de tudo’ que acumulou tanto e ficou insuportável para a maioria da população. A revolta popular é um atitude louvável, mesmo que a contra-pergunta dos que enxergam somente reacionários ficaria com a mesma observação de Lewin e Asch, em que a identificação da massa com a ideia de alguns se tornou em uma conformidade.

Mas a realidade de protestos vivida hoje no país só será conformidade quando o grito continuar o mesmo daqui alguns meses, principalmente depois das eleições. O que existe hoje é um belo despertar. Com a palavra, Maurice Marleau-Ponty (1908-1961): ‘a fim de ver o mundo, temos de romper com nossa aceitação habitual a ele’.

O despertar não quer dizer sisudez, o afastar da alegria somente até que a ordem (e o progresso) esteja novamente em aceitação com o futuro que queremos. Podemos sim celebrar um evento esportivo (por mais que não deveria ocorrer por questões de princípios), pois a felicidade é uma condição inerente e fundamental para o espírito.

Somente não podemos condicionar nossa alegria de viver, de aprender e compreender às regras da Fifa – e, muito menos, conceber que somos cidadãos do Território Fifa.

Um ser inteiro não tem fronteiras.

DANIEL POLCARO é jornalista e administra o Defenestrando.

O FREIO DO POVO

Há muito tempo que habilidosos políticos aprenderam a controlar o povo.

Sim, a grande massa popular precisa de controle.

Porque desde sempre uma pequena minoria comanda, domina e oprime a maioria.

A política do pão e circo servia a isso. Segundo pesquisadores a expressão foi criada para criticar a falta de informação do povo romano, que não se interessava por política, mas só por alimento e diversão.

Atualmente o futebol é considerado o esporte mais popular do mundo, mobilizando cerca de 270 milhões de pessoas e movimentando bilhões de reais (ou dólares).

Quando escolhemos o tema desta semana, não havia ainda a definição do Brasil como finalista do torneio atualmente em disputa.

Será que hoje os brasileiros estão esquecidos dos seus problemas, dos políticos, dos dramas que levaram às ruas milhares de pessoas protestando por um país melhor?

Penso que não. Ainda que haja muita gente alienada, há informação bastante para uma clara distinção dentre as coisas e e valores diferentes.

Filosoficamente, podemos ver que o esporte sempre foi utilizado como forma de culto ao corpo, e dentre os gregos como forma de homenagearem os deuses, que nada mais são do que os arquétipos humanos.

Atualmente, a filosofia dominante é da competição. Nelson Rodrigues já falava que muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida de futebol, pois bons sentimento não fazem bom futebol.

Porém, já se discute a aplicação da ética, do fair play, como modelos de convivência e de utilização do futebol como exemplo para outras atividades humanas.

É curiosa a relação psicológica do brasileiro com o futebol.

Um misto de amor e ódio. De paixão e de entrega absoluta.

Se os brasileiros transportassem para o relacionamento pessoal a mesma paixão, interesse e fidelidade que dedicam aos clubes do coração teríamos outro tipo de sociedade.

De fato, você nunca vai ver um torcedor mudar de time porque se decepcionou com ele, ou por que jogou mal o time X é inimaginável vê-lo torcer pelo rival.

Ah, se namorados, namoradas, maridos e esposas fossem tratados com tanta tolerância, perdão e condescendência…

Li comentários de religiosos na internet que espiritualidade e futebol são antagônicos. Seria coisa do diabo?

Tanta energia boa sendo produzida por milhões de pessoas bem intencionadas, não pode ser tão ruim.

É bom informar e lembrar que o Santos de Pelé em 1969 parou uma sangrenta guerra civil no antigo Congo Belga, graças ao futebol.

Então também pode ser instrumento da paz.

ELDER CARDOSO.

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